O consumidor brasileiro já convive com práticas de economia circular em situações bastante comuns. Ele doa aquilo que não usa mais, tenta consertar alguns bens antes de substituí-los, compra determinados produtos usados e também incorpora itens feitos com materiais reciclados ao cotidiano. Ainda assim, quando a pesquisa da CNI sobre economia circular perguntou sobre preferência de compra, 61% dos entrevistados disseram preferir produtos novos.
À primeira vista, os dois comportamentos parecem difíceis de conciliar. Se reparar, reutilizar e prolongar a vida útil dos produtos já são práticas conhecidas, por que o novo continua ocupando uma posição tão privilegiada quando chega a hora de escolher?
A resposta mais fácil seria atribuir essa diferença à distância entre discurso e prática. O consumidor valorizaria sustentabilidade em tese, mas abandonaria esse princípio diante da prateleira. O problema é que os dados mostram um comportamento mais complexo. O mesmo indivíduo pode considerar perfeitamente normal comprar um livro usado, conservar um eletrodoméstico por meio de reparos e, ao mesmo tempo, hesitar diante de um eletrônico remanufaturado cuja procedência desconhece. Pode doar roupas regularmente e ainda considerar inadequado oferecer um presente de segunda mão.
Essas decisões pertencem ao mesmo universo da circularidade, mas não exigem do consumidor a mesma coisa. Quando são observadas separadamente, a preferência pelo novo começa a revelar menos uma contradição moral e mais uma diferença na quantidade de incerteza que cada escolha obriga alguém a aceitar.
A contradição diminui quando deixamos de chamar tudo de consumo circular
A pesquisa realizada pela Nexus para a CNI em 2026 ajuda a dimensionar esse aparente paradoxo. Mais da metade dos brasileiros entrevistados compra produtos feitos com materiais reciclados, práticas como doar e tentar consertar bens antes do descarte estão presentes no cotidiano e 72% avaliam positivamente empresas que investem em sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a preferência pelo novo permanece elevada e 43% demonstram resistência à compra de produtos reciclados independentemente do preço.
Esses indicadores não descrevem necessariamente pessoas dizendo uma coisa e fazendo outra. Parte do problema está na própria amplitude daquilo que chamamos de economia circular.
Consertar um objeto que já pertence ao consumidor significa continuar usando algo cuja origem, manutenção e histórico são conhecidos. Doá-lo acontece depois que a decisão de compra já foi tomada. Comprar um produto reciclado exige algum grau de confiança no processo utilizado para produzi-lo, enquanto adquirir um item usado introduz uma pergunta adicional sobre aquilo que aconteceu com o objeto antes que ele chegasse às mãos do novo comprador. Um produto remanufaturado acrescenta outras variáveis, como processo de recuperação, substituição de componentes, desempenho e cobertura de garantia.
A classificação ambiental pode aproximar essas práticas porque todas prolongam o uso de recursos ou reduzem desperdícios, mas a experiência de decisão continua diferente.
Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode estar bastante integrada a práticas circulares sem aceitar indistintamente qualquer produto associado à circularidade. A questão deixa de ser apenas quanto ela valoriza sustentabilidade e passa a incluir quanto precisa saber, confiar ou investigar antes de considerar aquela alternativa adequada.
É nesse ponto que o produto novo ganha uma vantagem importante.
O novo não oferece apenas novidade
Quando alguém compra um produto novo, recebe mais do que um objeto que nunca foi utilizado. A condição de novo costuma vir acompanhada de informações e expectativas que simplificam a decisão: origem conhecida, integridade presumida, ausência de desgaste anterior, garantia definida, possibilidade de troca e uma expectativa relativamente clara sobre vida útil.
Nem todas essas vantagens estão presentes em todos os mercados, e nem todas são objetivamente superiores. Ainda assim, elas participam da percepção de risco.
Na pesquisa da CNI, entre os consumidores resistentes à compra de produtos reciclados, 30% mencionaram dúvidas relacionadas à durabilidade, enquanto 34% apontaram preferência pelo novo. Estudos brasileiros sobre produtos remanufaturados e sobre a cadeia de eletroeletrônicos também identificam preocupações com percepção negativa, comunicação, reparabilidade e características dos produtos que dificultam sua recuperação.
A vantagem do novo pode, portanto, estar menos na novidade como desejo e mais na quantidade de perguntas que ele dispensa.
Quem compra um notebook novo de uma fabricante conhecida normalmente não precisa descobrir quem utilizou o equipamento anteriormente, em que condições foi usado, quais componentes foram substituídos ou se o desgaste é compatível com o preço cobrado. Em um equipamento remanufaturado, algumas dessas questões podem precisar ser respondidas antes que a escolha pareça segura.
Isso não significa que o novo seja sempre tecnicamente superior. Significa que ele frequentemente chega ao mercado envolvido por uma infraestrutura que torna sua avaliação mais simples.
A diferença é importante porque impede que toda resistência à circularidade seja tratada como preconceito ou falta de consciência. Em determinadas categorias, escolher o novo pode ser também uma maneira de reduzir o custo de investigar aquilo que se está comprando.
Quanto maior a incerteza percebida, maior tende a ser a importância das garantias que acompanham a escolha.
Um livro usado e uma toalha usada não significam a mesma coisa
A aceitação de produtos usados no Brasil mostra como esse mecanismo muda conforme a categoria.
Pesquisa da CNDL e do SPC Brasil realizada em 2018 encontrou maior aceitação de segunda mão em produtos como livros e veículos, ao mesmo tempo em que categorias ligadas a utensílios de cozinha e itens de cama, mesa e banho apresentavam preferência muito maior pelo novo. Entre quem havia comprado livros, 76% consideravam mais vantajosa a opção usada; entre compradores de utensílios de cozinha ou cama, mesa e banho, 81% consideravam mais vantajoso adquirir o item novo.
A condição física é semelhante em um aspecto: são produtos que já pertenceram a outra pessoa. O significado atribuído a essa condição, porém, muda completamente.
Um livro não costuma ser considerado menos legível porque alguém o leu antes. Em alguns casos, marcas de uso sequer representam um problema relevante. No mercado automobilístico, comprar um veículo usado tornou-se uma prática suficientemente normalizada para que exista uma infraestrutura ampla de avaliação, revenda, documentação e precificação em torno dela.
Já produtos associados à intimidade corporal, higiene ou contato pessoal podem despertar outros tipos de resistência. Um estudo com 332 consumidores brasileiros mostrou que a percepção de contaminação pode alterar a avaliação da qualidade de produtos pessoais usados, embora esse efeito varie conforme outras características do consumidor e da situação.
A moda revela ainda outra possibilidade. O fato de uma peça já ter sido usada pode funcionar como desvantagem para determinados consumidores, mas também pode ser reinterpretado como exclusividade, curadoria, raridade ou caráter vintage. Pesquisa brasileira sobre compartilhamento de roupas encontrou justamente significados ligados a exclusividade, economia associada à qualidade, curadoria, vintage e sustentabilidade.
Nada disso é bem explicado por uma pergunta genérica sobre se o consumidor aceita produtos usados.
A condição de usado não possui um significado estável. Ela interage com aquilo que se compra, com o risco associado à categoria e com aquilo que o consumidor espera daquele objeto.
Essa variação ajuda a compreender por que não existe uma única barreira ao consumo circular. Há mercados nos quais a segunda mão já se tornou convencional e outros em que a existência de um histórico anterior altera profundamente a avaliação.
O preço ajuda a atravessar a incerteza, mas não a elimina
Se uma alternativa circular introduz incerteza, uma vantagem econômica pode funcionar como compensação.
Em pesquisa da CNDL e do SPC Brasil sobre compra de produtos usados pela internet, economia apareceu como motivação dominante: 77% dos compradores mencionaram esse fator, enquanto 33% relacionaram a decisão ao consumo sustentável e consciente. O dado é de 2021 e não deve ser usado como retrato atual de todo o mercado, mas ajuda a identificar um mecanismo recorrente.
Uma pessoa pode aceitar um grau maior de risco quando a diferença de preço torna essa escolha suficientemente vantajosa.
Isso ajuda a explicar parte da adoção da segunda mão, mas não significa que qualquer insegurança desapareça diante de um desconto. A pesquisa nacional da CNI de 2026 mostra resistência a produtos reciclados que persiste independentemente do preço, o que indica que algumas barreiras estão ligadas a atributos que o benefício econômico sozinho não compensa.
A relação entre preço e circularidade, portanto, é menos simples do que a ideia de que consumidores comprariam alternativas circulares se elas fossem mais baratas.
Em algumas categorias, preço cria uma margem para experimentar. Em outras, procedência, durabilidade, conservação ou garantia continuam pesando mesmo quando existe vantagem econômica. Quanto maior o risco atribuído ao produto ou à situação, maior pode ser a necessidade de outros sinais capazes de sustentar a escolha.
É por isso que ampliar o consumo circular não depende apenas de oferecer produtos mais baratos. Depende também das condições sob as quais o consumidor consegue avaliá-los.
Parte da preferência pelo novo é produzida pelo próprio mercado
Existe uma tendência a tratar escolhas sustentáveis como resultado quase exclusivo de valores individuais. Se o consumidor sabe que determinada alternativa produz menos desperdício e ainda assim escolhe o novo, parece natural atribuir essa decisão a uma preferência pessoal.
Os estudos sobre economia circular mostram que essa explicação é incompleta.
No setor de eletroeletrônicos, por exemplo, uma pesquisa publicada pela Revista de Administração de Empresas em 2025 identificou gargalos que incluem falta de peças universais, características de design que dificultam desmontagem, concentração geográfica dos atores da cadeia, falta de comunicação com o consumidor e desincentivo à cultura de reparo. O mesmo estudo também registra visão negativa sobre produtos remanufaturados e reciclados entre os desafios relacionados ao consumidor.
Quando reparar um equipamento depende de localizar componentes, encontrar serviços capazes de realizá-lo e avaliar se o processo oferece condições satisfatórias, substituir o produto inteiro pode acabar parecendo a opção mais simples, inclusive para alguém que preferiria prolongar sua vida útil.
O mesmo raciocínio vale para mercados de segunda mão. Garantia, procedência, reputação do vendedor, curadoria, certificação, conservação e informação reduzem a quantidade de incerteza que o comprador precisa administrar sozinho. Na pesquisa sobre usados online da CNDL/SPC Brasil, todos os entrevistados relataram algum cuidado na compra, com destaque para procura por lojas e sites confiáveis, recomendações de outros consumidores e garantias.
Um produto circular não compete apenas com outro produto. Compete também com toda a estrutura construída ao redor da compra convencional.
Se adquirir algo novo envolve preço claro, política de troca conhecida, assistência organizada e padrões relativamente estáveis de qualidade, enquanto a alternativa circular exige investigação, conhecimento técnico ou aceitação de garantias menos definidas, parte da preferência pelo novo pode ser reforçada pelas próprias condições da escolha.
A percepção empresarial mostra o outro lado dessa relação. Na Sondagem Especial Economia Circular 2026 da CNI, 25% das indústrias identificaram ausência de demanda por produtos e serviços circulares como uma das principais barreiras econômicas. Entre os obstáculos culturais e educacionais, 21% mencionaram percepção negativa do consumidor sobre esses produtos. Ao mesmo tempo, 46% não souberam avaliar quais fatores culturais ou educacionais funcionavam como barreiras, o que impede transformar a visão empresarial em diagnóstico direto do comportamento do consumidor.
Ainda assim, os dados revelam uma possível retroalimentação: empresas podem hesitar em investir porque percebem baixa demanda, enquanto consumidores podem hesitar diante de mercados em que informação, garantia ou disponibilidade ainda são menos desenvolvidas do que nas alternativas convencionais.
Nesse sentido, a preferência pelo novo não nasce apenas dentro do consumidor. Ela também pode ser reforçada por uma arquitetura de mercado que tornou o novo mais fácil de entender, comprar e substituir.
Há momentos em que novo significa mais do que nunca usado
Nem toda vantagem do produto novo pode ser reduzida à segurança funcional.
Em determinadas situações, a condição de novo participa do significado social da compra. Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil realizada para o Dia dos Pais de 2026 encontrou uma divisão quase exata entre consumidores que considerariam e os que não considerariam presentear com um produto de segunda mão em perfeito estado. Entre aqueles que recusariam a ideia, 28% disseram que presente precisa ser novo, enquanto 18% mencionaram receio quanto à qualidade.
O contexto é específico e não permite concluir que o mesmo raciocínio valha para qualquer aquisição. Justamente por isso, ele é revelador.
Um produto usado pode cumprir perfeitamente sua função e ainda ser considerado inadequado para uma ocasião em que a novidade integra o próprio significado do gesto. Nessa situação, novo deixa de descrever apenas o estado físico do objeto e passa a funcionar como sinal de cuidado, adequação ou valor.
Em outros contextos, ocorre o inverso. Uma roupa vintage, uma peça fora de produção ou um objeto procurado por exclusividade podem valer justamente porque carregam uma trajetória anterior. Estudos brasileiros sobre consumo de segunda mão mostram que exclusividade e curadoria podem participar positivamente dessa experiência.
Isso reforça um ponto central: circularidade não disputa apenas atributos funcionais. Também disputa convenções sobre o que é apropriado, desejável ou valioso em cada situação.
O problema talvez não seja convencer, mas legitimar a alternativa
Se 72% dos consumidores pesquisados pela CNI avaliam positivamente empresas que investem em sustentabilidade e práticas circulares já estão presentes no cotidiano, é insuficiente explicar a preferência pelo novo apenas como falta de conscientização.
Conhecer o argumento ambiental não resolve necessariamente a decisão.
Uma pessoa pode concordar que prolongar a vida útil dos produtos seja desejável e ainda não confiar em determinado eletrônico remanufaturado. Pode considerar a reutilização importante e rejeitar roupa usada em uma situação específica. Pode desejar consumir de maneira mais sustentável e concluir que, para determinado produto, as garantias oferecidas pela alternativa circular não são suficientes.
É nesse ponto que aparece uma distinção importante entre reconhecer o valor da circularidade e considerar uma alternativa circular legítima para uma compra concreta.
Essa legitimidade não será construída da mesma maneira em todos os mercados. Em alguns casos, garantia e certificação podem reduzir dúvidas. Em outros, preço e conservação serão mais importantes. Curadoria pode alterar a percepção sobre moda de segunda mão, enquanto melhores condições de reparabilidade podem tornar a manutenção de produtos mais viável.
Não existe uma fórmula única porque também não existe uma única incerteza.
O produto novo mantém vantagem justamente porque muitas dessas garantias já estão incorporadas às condições convencionais de compra. As alternativas circulares precisam reconstruí-las por caminhos diferentes, dependendo da categoria e da situação.
Isso muda a forma de interpretar a aparente contradição encontrada nas pesquisas brasileiras.
A preferência pelo novo não é necessariamente incompatível com o avanço da economia circular. Ela mostra que diferentes escolhas ainda não possuem o mesmo grau de previsibilidade para o consumidor.
Quando circular deixa de parecer uma concessão
O mesmo consumidor pode consertar um eletrodoméstico, doar roupas, comprar um livro usado e escolher um celular novo sem que exista necessariamente uma crença única organizando todas essas decisões. Cada uma envolve custos, riscos, garantias e significados diferentes.
A economia circular tende a parecer mais simples quando é discutida em termos gerais, porque reutilizar recursos e prolongar a vida útil dos produtos são objetivos relativamente fáceis de compreender. A dificuldade surge quando esse princípio precisa ser convertido em uma escolha específica.
Enquanto determinada alternativa circular exigir que o consumidor aceite mais incerteza em troca de sustentabilidade ou de uma economia financeira, sua adoção dependerá de quanto essa incerteza é compensada. Em alguns mercados, o preço pode ser suficiente. Em outros, não.
A transformação mais relevante ocorre quando reparar, reutilizar ou comprar um produto usado, reciclado ou remanufaturado deixa de parecer uma exceção que precisa ser justificada e passa a oferecer condições de escolha comparáveis às que o consumidor já associa ao novo.
Isso não elimina a importância da consciência ambiental. Apenas mostra que consciência e decisão pertencem a níveis diferentes.
Talvez o avanço da economia circular dependa menos de convencer consumidores de que sustentabilidade importa e mais de fazer com que determinadas escolhas circulares deixem de parecer extraordinárias. Quando isso acontece, o novo deixa de ser a única forma simples de reduzir a incerteza.


