Ler, comprar, compartilhar: o que está mudando na relação dos jovens com os livros

Em 2024, o Brasil chegou a um marco pouco animador para quem acompanha os hábitos de leitura no país. Pela primeira vez na série histórica da Retratos da Leitura, os não leitores passaram a ser maioria. Apenas 47% da população pesquisada havia lido, inteiro ou em partes, algum livro nos três meses anteriores, contra 52% em 2019. A queda também alcançou os adultos jovens: entre 18 e 24 anos, a proporção passou de 59% para 53%; entre 25 e 29, de 55% para 51%.

Pouco depois, outros números começaram a contar uma história aparentemente diferente. Em 2025, a parcela da população adulta que havia comprado ao menos um livro nos doze meses anteriores aumentou de 16% para 18%, o equivalente a aproximadamente três milhões de consumidores adicionais. As faixas de 18 a 34 anos ganharam peso dentro desse mercado. Em setembro de 2026, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo recebeu 760 mil visitantes, superou o público da edição anterior, teve cinco dos dez dias com ingressos esgotados e registrou aumento de 57% na média de faturamento dos expositores.

A cena poderia sugerir uma recuperação da leitura entre os jovens: eventos cheios, autores cercados por filas, livros circulando nas redes e um mercado consumidor mais jovem. Os dados não permitem essa conclusão. Mas também não combinam facilmente com a imagem de que o livro estaria desaparecendo culturalmente.

Parte da dificuldade está em esperar que todas essas medidas contem a mesma história.

Antes da contradição, existe um problema de medida

A Retratos da Leitura e o Panorama do Consumo de Livros não observam o mesmo comportamento.

A primeira considera leitor quem leu ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. A definição inclui livros impressos e digitais, de diferentes gêneros, e é utilizada para acompanhar o comportamento leitor da população brasileira a partir dos cinco anos. Em 2024, foram entrevistadas 5.504 pessoas em 208 municípios.

O Panorama observa outro universo. A pesquisa pergunta a brasileiros com 18 anos ou mais se compraram ao menos um livro nos doze meses anteriores. Seu objeto é consumo, e não frequência de leitura.

A diferença parece simples, mas muda a interpretação.

Uma pessoa pode comprar hoje um livro que só começará a ler daqui a seis meses. Pode adquirir três volumes e terminar apenas um. Pode comprar um presente. Outra pessoa pode ler livros emprestados, frequentar uma biblioteca ou acessar obras por meios digitais sem fazer nenhuma compra durante o ano.

Por isso, dizer que a leitura caiu enquanto o consumo cresceu não significa que duas pesquisas estejam produzindo resultados incompatíveis. Elas observam momentos diferentes da relação com o livro.

O cuidado precisa ser ainda maior quando olhamos para os jovens. A Retratos trabalha, entre outras, com as faixas de 18 a 24 e 25 a 29 anos. O Panorama reúne grupos de 18 a 24 e 25 a 34 anos. Além disso, as pesquisas não acompanham as mesmas pessoas. Não sabemos, portanto, se os jovens que passaram a comprar livros são justamente aqueles cuja frequência de leitura diminuiu.

O que sabemos é mais interessante do que uma contradição estatística. Os indicadores de leitura e os indicadores de consumo podem seguir movimentos diferentes.

E, quando essa separação é feita, surge uma pergunta que os números de leitura sozinhos não conseguem responder: o que acontece com um livro entre ser descoberto, comprado, lido e incorporado à vida cultural de alguém?

Um livro começa a circular antes de ser aberto

A relação com uma obra costuma começar antes da primeira página.

Na Retratos da Leitura, 16% dos leitores de 18 a 39 anos disseram que escolheram o último livro porque o haviam visto no YouTube, Instagram, Facebook ou outras redes sociais. Entre 18 e 24 anos, amigos foram citados por 26%, à frente das redes, mostrando que a mediação digital se acrescenta a formas de recomendação que continuam sendo fortemente sociais.

O Panorama encontra uma presença digital ainda maior quando observa especificamente quem compra livros. Segundo a pesquisa, 65% dos consumidores acompanham algum criador de conteúdo sobre livros ou literatura. Outros indicadores mostram que sites de compras, pessoas próximas, livrarias e criadores coexistem como caminhos de descoberta de lançamentos.

Os universos não são equivalentes. Os 65% pertencem a pessoas que já fazem parte do mercado comprador, e não aos jovens brasileiros como um todo. Ainda assim, os dados ajudam a visualizar uma mudança na circulação cultural do livro.

Uma obra pode chegar a alguém por um vídeo curto, uma conversa entre amigos, uma lista publicada por um criador ou uma recomendação algorítmica. Pode ser comprada semanas depois. Durante a leitura, pode gerar comentários, mensagens e discussões. Depois, pode voltar às redes em forma de resenha, reação, ranking ou recomendação.

A leitura continua no centro desse circuito para muitas pessoas, mas já não descreve tudo o que circula ao redor do livro.

Isso é particularmente importante porque boa parte dessa circulação acontece em ambientes digitais sem produzir, necessariamente, um livro digital.

A tela não eliminou o objeto livro

Na última compra registrada pelo Panorama de 2025, 80% dos consumidores adquiriram livros impressos e 20% optaram por formatos digitais. Entre os exemplares impressos, pouco mais da metade foi comprada online. Ou seja, até a compra de um objeto físico pode ocorrer dentro de uma trajetória inteiramente mediada por telas.

Essa combinação enfraquece uma oposição que durante anos pareceu intuitiva: de um lado, telas e redes; de outro, livros impressos.

As duas coisas podem fazer parte do mesmo percurso.

Uma pesquisa exploratória realizada pelo Reglab em dez livrarias físicas de São Paulo observou justamente essa passagem entre o digital e o espaço material. O estudo identificou mesas e seções ligadas a títulos que circulavam no BookTok e consumidores utilizando referências salvas no celular para procurar obras nas lojas. O trabalho é qualitativo e localizado, portanto não mede a extensão do fenômeno no país, mas mostra que esse mecanismo existe.

A materialidade do livro também pode adquirir valor dentro dessa própria circulação digital. Capas, edições especiais, boxes, lombadas e estantes são elementos fotografáveis, colecionáveis e compartilháveis. O livro não aparece apenas como suporte para um texto. Pode aparecer também como objeto que ocupa espaço, pode ser presenteado, exibido ou incorporado a uma coleção.

Não temos evidência nacional suficiente para afirmar que essa dimensão material explica o crescimento das compras entre os jovens. Tampouco podemos concluir que eles estejam adquirindo livros principalmente por sua aparência.

O que as evidências permitem perceber é uma relação menos linear. O digital pode participar da descoberta e da conversa sem substituir necessariamente o objeto físico. Em alguns circuitos, ele inclusive amplia sua visibilidade.

Quando gostar de livros também se torna algo que pode ser visto

Ler costuma ser representado como uma atividade privada. Há uma pessoa, um texto e um período de atenção que, em grande medida, acontece fora do olhar dos outros.

As comunidades digitais acrescentaram outra camada a essa experiência.

Em estudo sobre criadores de conteúdo literário no TikTok brasileiro, Issaaf Karhawi, Sarah Szabó Iossi e Carla Montuori Fernandes identificaram diferentes posições assumidas nesse ambiente, entre elas as de colecionador, leitor lúdico, leitor neófito informado e aspirante a especialista. Resenhas convivem com recomendações, vídeos de rotina, tendências e outras formas de falar sobre livros.

Isso transforma parte da relação com a leitura em prática publicamente observável. Alguém pode demonstrar conhecimento sobre fantasia, romance ou clássicos, organizar uma coleção, comentar personagens, reagir emocionalmente a um final ou estabelecer vínculos com pessoas que compartilham determinado repertório.

Nesse contexto, um livro participa também da apresentação pública do gosto.

A existência desse comportamento, porém, não resolve a pergunta sobre leitura. Um vídeo sobre cinco livros comprados não informa quantos foram terminados. Uma estante fotografada não mede frequência leitora. Milhares de interações em torno de um título não equivalem a milhares de pessoas efetivamente lendo aquela obra.

É justamente essa distância que levou Milva Alves Magalhães e Janaina de Jesus Santos a examinar criticamente a imagem do “leitor visível” produzida no discurso sobre o BookTok. As autoras chamam atenção para a convergência entre leitura impressa, lógica de exposição das plataformas e estetização da experiência leitora, questionando interpretações que tratam visibilidade digital como evidência automática de formação de leitores.

Esse contraponto importa porque evita duas conclusões igualmente frágeis.

A primeira seria imaginar que toda mobilização digital em torno de livros demonstra crescimento da leitura. A segunda seria desqualificar coleção, recomendação, fandom ou compartilhamento como práticas culturalmente irrelevantes porque não podem ser traduzidas diretamente em páginas lidas.

Essas práticas, porém, dizem respeito a outra dimensão da relação com os livros.

Em determinados grupos, ler continua sendo uma atividade privada, enquanto gostar de livros, conhecer autores e pertencer a determinados universos literários se torna uma identidade cada vez mais observável.

Pouca gente pode produzir muita cultura

Esse mecanismo ajuda a interpretar outro sinal aparentemente contraditório: eventos literários enormes em um país no qual a leitura perdeu alcance.

Na Retratos da Leitura de 2024, apenas uma parcela pequena da população havia frequentado voluntariamente um evento ligado a livros ou literatura no período pesquisado. A presença era maior entre pessoas que já eram leitoras.

Uma pesquisa específica realizada pelo Instituto Pró-Livro e pelo Itaú Cultural na Bienal de São Paulo de 2022 torna essa seleção ainda mais evidente. Foram entrevistados mil visitantes com mais de dez anos, excluídos estudantes em excursões escolares, e o público encontrado era muito mais jovem, escolarizado e ligado à leitura do que a população retratada pela pesquisa nacional.

A Bienal, portanto, não é uma miniatura do Brasil.

E é justamente por isso que seu sucesso não contradiz a queda da leitura nacional.

Em 2026, 760 mil pessoas passaram pelo evento em dez dias, cinco deles com ingressos esgotados. A organização relatou presença expressiva de jovens e famílias, embora não tenha publicado nessa divulgação uma distribuição etária detalhada. O faturamento médio dos expositores cresceu 57% em relação a 2024.

Em relato institucional publicado depois do evento, dirigentes da Câmara Brasileira do Livro descreveram jovens esperando horas para encontrar escritores, procurando autógrafos e encontrando presencialmente pessoas conhecidas pelas redes sociais. É uma observação do próprio setor, não uma pesquisa amostral, mas mostra como um evento do livro pode operar simultaneamente como comércio, encontro e sociabilidade.

Aqui aparece uma distinção útil para entender o fenômeno.

Para organizar esta análise, proponho distinguir duas dimensões. Uma prática cultural possui alcance, ou difusão, quando observamos quantas pessoas a realizam. Pode possuir intensidade quando determinados grupos dedicam muito tempo, dinheiro, conversa e participação a ela.

Não temos um indicador nacional chamado “intensidade cultural do livro”, nem uma série histórica capaz de provar que essa intensidade esteja aumentando. A distinção é uma ferramenta analítica deste artigo, não um indicador estatístico.

Ela ajuda, porém, a enxergar algo que uma média populacional pode esconder.

Uma prática pode se tornar menos disseminada e continuar gerando comunidades extraordinariamente mobilizadas. Se essas comunidades ocupam plataformas digitais, movimentam vendas, lotam eventos e transformam determinados autores em figuras públicas reconhecíveis, sua presença cultural pode parecer muito maior do que sua participação numérica na população.

Essa impressão não precisa ser falsa. Apenas descreve outra escala do fenômeno.

Leitor, consumidor e participante não são a mesma coisa

A definição usada pela Retratos da Leitura é necessária justamente porque permite acompanhar um comportamento ao longo do tempo. Se cada pessoa puder definir livremente o que significa “ser leitor”, perde-se a possibilidade de comparar os indicadores.

Mas uma definição estatística não precisa descrever todas as identidades culturais construídas ao redor do livro.

Uma pessoa pode ler intensamente e quase nunca comprar. Pode utilizar bibliotecas, empréstimos ou acervos que já possui. Pode não seguir escritores, não frequentar feiras e jamais publicar sobre livros nas redes.

Outra pode comprar lançamentos, conhecer autores, acompanhar adaptações, frequentar livrarias, participar de comunidades e passar períodos sem terminar um livro.

Há ainda quem reúna tudo isso.

Quando usamos apenas uma dessas dimensões para falar sobre todas as outras, a interpretação começa a falhar.

O mesmo acontece no sentido inverso. Vendas não comprovam leitura. Engajamento não mede páginas lidas. Uma Bienal cheia não representa toda a população. Mas a queda no número de leitores também não informa, sozinha, tudo o que está acontecendo socialmente com o livro.

Os dados do mercado editorial ajudam a mostrar a diferença. Em 2026, o varejo livreiro continuou crescendo e a ficção adulta ampliou sua participação, chegando a 32,6% do faturamento acumulado no período divulgado pelo SNEL. Ao mesmo tempo, houve redução na bibliodiversidade comercializada. O mercado estava vendendo mais, mas isso não significa necessariamente que mais pessoas estivessem lendo nem que uma variedade maior de obras estivesse circulando.

Um único verbo já não é suficiente para descrever todas essas relações. Ler e comprar são duas delas; recomendar, colecionar, acompanhar, encontrar e pertencer acrescentam outras camadas.

O livro pode estar muito visível sem estar mais disseminado

A queda observada pela Retratos da Leitura continua sendo um dado central. O Brasil não pode transformar recordes de uma Bienal, crescimento de faturamento ou milhões de visualizações em evidência de uma recuperação do hábito de leitura que as pesquisas não encontraram.

Mas o movimento contrário também simplifica demais o fenômeno. Uma sociedade com menos leitores, pelo critério utilizado pela pesquisa, não é necessariamente uma sociedade na qual o livro perdeu todas as formas de presença cultural.

Entre esses dois diagnósticos existe um espaço que começa a ficar mais visível.

Nele, livros são descobertos por redes e por amigos, comprados em lojas físicas e plataformas digitais, transformados em objetos de coleção, discutidos em comunidades, associados a repertórios e identidades, levados para eventos e usados como ponto de encontro entre pessoas que talvez nunca tivessem se conhecido fora desses circuitos.

Não sabemos ainda se essas práticas estão crescendo o suficiente para dizer que o livro se tornou culturalmente mais importante para os jovens brasileiros como conjunto. A pesquisa disponível não mede isso.

Sabemos, porém, que elas existem e que podem coexistir com a retração da leitura.

É por isso que talvez a pergunta mais útil não seja se os jovens “voltaram aos livros”. Os dados não mostram esse retorno de maneira generalizada. O que eles começam a revelar é uma relação em que ler, comprar e participar da cultura dos livros já não precisam ocorrer na mesma intensidade nem nas mesmas pessoas.

Contar leitores continua sendo indispensável para compreender a leitura no país. Mas esse número, sozinho, não foi feito para medir tudo o que acontece entre um livro ser publicado e passar a fazer parte da vida cultural de alguém.

Bárbara Gouvêa
Bárbara Gouvêahttp://barbaragouvea.com.br
Bárbara Gouvêa é administradora formada pela UFRRJ, com trajetória profissional construída entre comunicação, marketing e gestão de projetos. Sua experiência inclui projetos envolvendo articulação de stakeholders, processos, negócios e atuação em contextos de alta complexidade.Desenvolve Narrativa de Mercado, campo de investigação dedicado a compreender como mercados constroem significados e como esses significados influenciam percepção, legitimidade, valor e escolha.

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