O mercado de trabalho depende de quem cuida

Para uma pessoa estar disponível para trabalhar, uma série de tarefas precisa estar resolvida em algum lugar. Uma criança precisa permanecer com alguém. Uma pessoa idosa que perdeu parte da autonomia pode precisar de ajuda para se alimentar, se locomover ou ir a uma consulta. Uma pessoa com deficiência pode depender de apoio para atividades cotidianas. Alguém organiza horários, prepara refeições, acompanha medicamentos, atende uma emergência e permanece disponível quando outra pessoa não pode ficar sozinha.

Durante muito tempo, grande parte desse trabalho foi absorvida pelas famílias e, dentro delas, sobretudo pelas mulheres. O mercado recebia o trabalhador na empresa, no comércio, na escola ou no hospital, mas raramente incorporava às suas contas o conjunto de tarefas realizado para que aquela pessoa pudesse estar ali.

O envelhecimento acelerado da população brasileira torna essa estrutura mais difícil de ignorar. Em 2023, pessoas com 60 anos ou mais representavam 15,6% da população; nas projeções do IBGE, poderão chegar a 37,8% em 2070. Mais importante para a questão do cuidado, cresce também a população em idades muito avançadas, nas quais limitações funcionais se tornam mais frequentes. Isso não significa que envelhecer seja sinônimo de dependência. Significa que, em uma sociedade mais velha, aumenta a quantidade potencial de apoio cotidiano que precisará ser produzida por alguém.

A pergunta, então, não é apenas quantas pessoas precisarão de cuidado. É de onde virá o tempo necessário para cuidar delas.

O envelhecimento cria demanda por algo que não aparece apenas nos hospitais

Quando se fala no envelhecimento do Brasil, duas consequências costumam aparecer primeiro: pressão sobre sistemas de saúde e mudanças na Previdência. Há, porém, uma terceira dimensão menos evidente. Quanto mais pessoas vivem até idades avançadas, maior tende a ser a necessidade agregada de ajuda para atividades que não pertencem necessariamente ao campo médico.

O relatório da CEPAL sobre cuidados de longa duração no Brasil, publicado em 2026, chama atenção justamente para o crescimento da população com 80 anos ou mais e para o risco maior de dependência funcional nesse grupo. Cuidado de longa duração pode incluir apoio para alimentação, higiene, mobilidade, preparação de refeições, uso de transporte, administração de medicamentos e outras atividades necessárias para preservar a autonomia quando alguém já não consegue realizá-las sozinho.

Essa distinção importa porque evita tratar todos os idosos como dependentes. Uma pessoa de 70 ou 80 anos pode viver de forma totalmente autônoma. Outra pode precisar de ajuda algumas horas por semana. Outra pode exigir acompanhamento permanente. O efeito demográfico não é transformar idade em incapacidade, mas aumentar o número de pessoas entre as quais a necessidade de apoio tende a ser mais frequente.

Se essa demanda cresce, a sociedade precisa produzir mais tempo de cuidado. E tempo, ao contrário de muitos outros recursos, não pode simplesmente ser estocado para uso futuro. Cada hora de acompanhamento precisa ser realizada por alguém no momento em que é necessária.

O recurso que começa a ficar apertado é o tempo

No Brasil, esse tempo continua distribuído de forma profundamente desigual. Em 2022, segundo o IBGE, mulheres dedicavam em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas. A participação no trabalho remunerado não elimina essa diferença.

Esse dado ajuda a deslocar a discussão. O problema do cuidado não começa quando uma família decide contratar alguém. Ele começa antes, na divisão das horas disponíveis dentro do próprio domicílio.

Para algumas famílias, cuidar significa reorganizar horários. Para outras, reduzir uma jornada de trabalho, recusar determinadas oportunidades ou interromper uma atividade remunerada. Dados do Observatório dos Cuidados, elaborados a partir da PNAD Contínua de 2022, mostram que quase um terço das mulheres de 16 anos ou mais no universo analisado alegava não estar disponível para o trabalho remunerado, não poder trabalhar ou não procurar emprego por responsabilidades de cuidado. Entre os homens na mesma condição, eram 3,5%.

Isso não permite afirmar que a existência de mais serviços de cuidado faria automaticamente todas essas mulheres ingressarem no mercado de trabalho. Decisões laborais dependem de renda, escolaridade, localização, oferta de vagas, saúde, preferências e muitas outras condições. O dado demonstra algo anterior: cuidar interfere concretamente na disponibilidade para trabalhar.

A transformação demográfica acrescenta pressão a uma organização que já exige muito tempo. Famílias menores, arranjos domiciliares mais diversos e a presença consolidada das mulheres no mercado de trabalho não significam que o cuidado familiar esteja desaparecendo. Em muitos casos, significam justamente que as mesmas pessoas passam a combinar emprego e cuidado. O próprio Observatório destaca que mudanças familiares e laborais das últimas décadas não foram acompanhadas por uma redistribuição equivalente das responsabilidades de cuidado entre homens e mulheres.

O recurso que começa a se tornar mais visível, portanto, não é apenas dinheiro para pagar pelo cuidado. É tempo humano disponível.

Quem cuida também decide quem consegue trabalhar

É nesse ponto que o cuidado deixa de parecer uma questão externa ao mercado de trabalho.

Quando uma pessoa é contratada para cuidar de outra, surge um emprego direto. Mas existe um segundo efeito, menos fácil de enxergar: ao assumir parte daquele trabalho, ela pode liberar horas de alguém da família que antes precisava realizá-lo sem remuneração.

Imagine uma filha que acompanha diariamente um pai com perda de autonomia. Se esse cuidado exige presença em consultas, preparação de refeições, ajuda com deslocamentos e supervisão durante parte do dia, sua própria disponibilidade profissional passa a ser condicionada por essas tarefas. Ela pode continuar trabalhando em jornada integral, reduzir horas, buscar um emprego mais próximo, recusar uma oportunidade que aumentaria os deslocamentos ou deixar o trabalho. A necessidade de cuidado já modificou sua relação com o mercado antes que exista qualquer contratação de cuidador.

Quando parte desse apoio é compartilhada com outra pessoa ou serviço, a equação muda novamente.

É nesse sentido que o cuidado pode ser compreendido como uma infraestrutura do trabalho. A expressão não descreve uma categoria estatística nem reduz o cuidado à sua utilidade econômica. Cuidar possui valor humano e social independentemente de qualquer efeito sobre emprego ou produtividade. A formulação serve para evidenciar uma relação: a disponibilidade de trabalhadores depende, em parte, de existirem pessoas e estruturas capazes de assumir responsabilidades que não desaparecem durante o expediente.

Estradas, energia e internet costumam ser reconhecidas como infraestruturas porque permitem que outras atividades aconteçam. O cuidado opera de maneira diferente, mas também cria uma condição anterior. Para que alguém esteja disponível para trabalhar, estudar ou procurar emprego, pode ser necessário que outra pessoa esteja disponível para cuidar.

O mercado de trabalho, portanto, não começa inteiramente no momento em que uma vaga é aberta. Parte das condições que tornam alguém capaz de ocupá-la é produzida dentro das casas.

O cuidado não está saindo da família

Essa constatação poderia levar a uma conclusão fácil: à medida que as famílias dispõem de menos tempo, o cuidado migrará para o mercado. As evidências não sustentam uma transição tão linear.

Nas Américas, um documento conjunto da Organização Internacional do Trabalho e da Organização Pan-Americana da Saúde estima que cerca de 80% das pessoas que fornecem cuidados de longa duração o fazem sem remuneração. A maior parte é composta por mulheres. O dado é regional, não uma medida específica do Brasil, mas mostra que, mesmo diante do desenvolvimento de serviços profissionais, as famílias continuam ocupando posição central na provisão de cuidado.

O que tende a surgir é uma combinação de arranjos. Parte do cuidado continua sendo feita por parentes. Parte pode ser contratada dentro do domicílio. Parte depende de instituições, serviços públicos ou organizações comunitárias. Em determinadas famílias, irmãos dividem horários. Em outras, uma pessoa reduz a própria jornada. Em outras, alguém é contratado apenas por algumas horas. Há ainda situações em que nenhuma alternativa está financeiramente disponível e o trabalho permanece quase integralmente dentro da família.

Essa diferença importa porque redistribuir cuidado também pode redistribuir possibilidades de participar do mercado de trabalho.

Uma família com renda para contratar apoio pode preservar uma parcela maior das horas profissionais de seus membros. Outra, submetida à mesma necessidade de cuidado, pode responder retirando tempo do emprego de alguém. Isso não significa que a primeira solução seja simples ou suficiente, nem que a segunda seja inevitável. Significa apenas que formas diferentes de resolver o cuidado podem produzir consequências distintas para a disponibilidade laboral.

A transformação, portanto, não é o cuidado sair da família. É a família deixar de ser o único lugar no qual se pressupõe que todo esse trabalho possa ser absorvido sem custo visível.

Quando o cuidado vira emprego, ainda precisamos saber que emprego é esse

À medida que uma parte dessas tarefas passa para relações remuneradas, surge outra dificuldade: definir exatamente o que estamos chamando de trabalho de cuidado.

A chamada economia do cuidado é muito mais ampla do que a ocupação de cuidador de idosos. Dependendo da definição, pode abranger profissionais da saúde, educação, assistência, serviços pessoais e trabalho doméstico. Tratar todos esses trabalhadores como “cuidadores” produziria uma falsa precisão.

O trabalho doméstico remunerado, porém, oferece uma janela importante para observar a transformação. No quarto trimestre de 2025, 5,6 milhões de pessoas trabalhavam no setor no Brasil. Mulheres representavam 92% da categoria e, entre elas, 68% eram negras. Esses trabalhadores realizam atividades variadas, desde limpeza e preparação de alimentos até cuidado de crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência. Os 5,6 milhões, portanto, não são uma estimativa do número de cuidadores profissionais.

Dentro do próprio trabalho doméstico, entretanto, a composição vem mudando. Dados organizados pelo DIEESE mostram que a parcela de pessoas empregadas em cuidados pessoais no domicílio passou de 5,8% em 2014 para 11,1% em 2024. Somadas às cuidadoras de crianças, as ocupações diretamente relacionadas ao cuidado representavam cerca de 21% do trabalho doméstico naquele ano.

Os registros formais permitem enxergar outra parte do fenômeno. Em 2024, a RAIS e o eSocial registravam 77.676 vínculos classificados como cuidador de idosos e 122.771 como babá no trabalho doméstico formal. São números relevantes, mas não medem toda a força de trabalho do cuidado. Ficam fora desse universo parte dos autônomos, informais, trabalhadores contratados por empresas, instituições e outras modalidades de vínculo.

Essa fragmentação é reveladora. A necessidade de cuidado pode crescer mais rapidamente do que nossa capacidade de medir com precisão quem o fornece profissionalmente.

Precisar mais de alguém não significa pagar melhor por esse trabalho

Há uma tentação de interpretar o envelhecimento como garantia de valorização profissional: se a demanda por cuidado aumenta, quem trabalha nesse campo passaria a ser mais disputado e, portanto, mais bem remunerado.

O mercado real pode ser menos linear.

Os segmentos atualmente próximos ao cuidado mostram uma estrutura de trabalho marcada por desigualdades antigas. Entre as trabalhadoras domésticas brasileiras, o rendimento médio mensal era de R$ 1.335 no quarto trimestre de 2025, 59% inferior à média das demais mulheres ocupadas. Cerca de 76% não tinham carteira assinada e 65% não contribuíam para a Previdência Social.

Isso não autoriza transferir automaticamente as características do trabalho doméstico para enfermeiros, profissionais de saúde, cuidadores contratados por instituições ou toda a economia do cuidado. Permite, porém, observar uma tensão concreta em um dos espaços nos quais esse trabalho é realizado.

A OIT e a OPAS identificam problema semelhante na região: cuidadores remunerados frequentemente enfrentam baixos salários, formação insuficiente e acesso restrito à proteção social. Uma sociedade pode depender cada vez mais de determinado trabalho e ainda atribuir baixo valor econômico a quem o executa.

Demanda e qualidade do emprego são variáveis diferentes.

Esse é um ponto importante para evitar a narrativa confortável de que o envelhecimento simplesmente criará “profissões do futuro”. Pode haver expansão de ocupações sem formalização suficiente. Pode haver mais contratação e pouca formação. Pode existir maior necessidade social e, ainda assim, remuneração incapaz de tornar a atividade atraente ou sustentável.

O trabalho pode se tornar mais necessário antes de se tornar mais valorizado.

Quando o mercado percebe o cuidado porque ele começa a faltar

Enquanto o cuidado é absorvido dentro das casas, grande parte de seus efeitos chega ao mercado de trabalho sem que o próprio mercado precise nomeá-los.

Uma empresa vê a funcionária que comparece ao expediente. Não vê necessariamente quem levou seu filho à escola, quem ficou com sua mãe durante o dia ou quantas horas de cuidado ainda serão realizadas depois que o trabalho remunerado terminar. Um processo seletivo identifica disponibilidade de horário, mas não registra toda a organização familiar necessária para produzir aquela disponibilidade.

Quando esses arranjos deixam de ser suficientes, os efeitos começam a aparecer em categorias que o mercado reconhece com mais facilidade: ausência, redução de jornada, indisponibilidade para determinadas escalas, recusa de oportunidades, saída da força de trabalho ou necessidade de contratar novos serviços.

O cuidado não passou a existir nesse momento. Seu custo também não nasceu quando alguém começou a receber por ele. O que mudou foi a possibilidade de continuar absorvendo tempo, responsabilidade e esforço sem que eles aparecessem explicitamente na organização do trabalho.

A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, teve seu Plano regulamentado pelo Decreto nº 12.562/2025 e posteriormente detalhado pela Portaria Interministerial nº 35/2025. Entre os objetivos definidos estão compatibilizar trabalho remunerado e responsabilidades familiares, promover trabalho decente para trabalhadores remunerados do cuidado e reconhecer, reduzir e redistribuir o trabalho não remunerado, realizado sobretudo por mulheres. A existência dessa estrutura não significa que os serviços necessários já tenham alcançado escala suficiente; mostra que o cuidado passou a ser reconhecido institucionalmente como questão que envolve famílias, Estado, sociedade e mercado de trabalho.

O mercado de trabalho depende de quem cuida

O envelhecimento brasileiro não determina uma única resposta para o futuro do cuidado. Parte continuará acontecendo dentro das famílias. Parte poderá ser assumida por profissionais. Outra parte dependerá de serviços públicos, instituições, comunidades ou combinações que ainda estão sendo construídas.

Também não sabemos, com os dados disponíveis, quantos cuidadores profissionais o país precisará nas próximas décadas nem qual parcela dessa demanda será atendida pelo mercado. A ideia de uma inevitável “crise de cuidadores” vai além do que as evidências permitem afirmar.

Mas uma transformação já pode ser observada com maior segurança.

A necessidade de cuidado interfere em quem consegue trabalhar, por quanto tempo e em quais condições. Ao mesmo tempo, quando esse trabalho passa a ser remunerado, cria ocupações próprias, ainda marcadas por problemas de reconhecimento, remuneração e proteção.

Isso coloca o cuidado em uma posição dupla. Ele é trabalho e também participa da infraestrutura que sustenta outros trabalhos.

Durante muito tempo, o mercado pôde tratar grande parte dessa infraestrutura como se ela estivesse naturalmente disponível dentro das famílias. O envelhecimento populacional, a desigual distribuição das responsabilidades e as mudanças na composição das famílias tornam essa suposição mais difícil de manter.

Por isso, a principal mudança não precisa ser o surgimento de uma nova indústria do cuidado nem a substituição da família por profissionais. É o reconhecimento de que disponibilidade para trabalhar nunca foi produzida apenas por salário, qualificação ou existência de vagas.

Ela também depende de alguém cuidar de quem não pode ficar sozinho.

O cuidado não está começando a importar para o mercado de trabalho. Ele sempre importou. O que começa a mudar é a possibilidade de continuar tratando esse trabalho como se acontecesse fora dele.

Bárbara Gouvêa
Bárbara Gouvêahttp://barbaragouvea.com.br
Bárbara Gouvêa é administradora formada pela UFRRJ, com trajetória profissional construída entre comunicação, marketing e gestão de projetos. Sua experiência inclui projetos envolvendo articulação de stakeholders, processos, negócios e atuação em contextos de alta complexidade.Desenvolve Narrativa de Mercado, campo de investigação dedicado a compreender como mercados constroem significados e como esses significados influenciam percepção, legitimidade, valor e escolha.

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