Satélites podem mudar o que significa ter cobertura móvel no Brasil

O Brasil já levou o 4G a todos os seus 5.570 municípios e, segundo a edição 2026 do Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações, a tecnologia alcança 99,62% da população urbana. Esses números sugerem uma rede móvel praticamente onipresente. Quando a medição deixa os centros urbanos e acompanha o território, porém, a imagem muda: cerca de 53% da malha rodoviária federal e 50,7% da estadual mapeadas têm cobertura 4G, enquanto 26.442 localidades ainda aparecem sem cobertura móvel e sem compromissos de atendimento. A edição 2026 é a mais recente disponibilizada pela Anatel.

A diferença não é apenas estatística. Ela mostra que cobrir pessoas e cobrir território são problemas distintos. A maior parte da população pode viver em áreas atendidas e, ainda assim, uma viagem por estrada, uma propriedade distante dos centros urbanos ou um deslocamento por uma região pouco povoada pode levar o celular de uma conexão normal à ausência completa de sinal.

É nesse intervalo que uma tecnologia começa a ganhar importância. O Direct-to-Device, ou D2D, permite que determinados satélites se comuniquem diretamente com dispositivos móveis, sem a antena externa utilizada nos serviços tradicionais de banda larga via satélite. A Anatel mantém desde 2024 um ambiente regulatório experimental para esse tipo de aplicação e, em 2026, ampliou seu prazo até abril de 2029.

A mudança parece pequena quando descrita tecnicamente: o aparelho pode ser alcançado por outra infraestrutura quando a rede terrestre não está disponível. Mas, se essa possibilidade se tornar parte cotidiana das redes móveis, ela altera uma ideia que durante décadas pareceu simples. O que significa dizer que um lugar tem cobertura quando diferentes redes podem alcançar o mesmo celular, com capacidades diferentes?

O Brasil cobre pessoas melhor do que cobre território

A expansão das redes móveis historicamente se concentrou nas áreas de maior densidade e demanda, enquanto territórios pouco povoados permanecem entre os pontos mais difíceis de atender. Uma estação rádio base cobre uma área determinada e, para manter o serviço ao longo de grandes distâncias, outras estações precisam assumir sucessivamente essa função. Em cidades, onde existem muitos usuários concentrados, essa infraestrutura encontra escala e pode ser adensada conforme cresce a demanda. Fora delas, a equação muda.

Os dados mais recentes da Anatel ajudam a visualizar essa diferença. O PERT 2026 registra presença do 4G em todos os municípios e quase universalização entre a população urbana, mas a cobertura rodoviária permanece próxima da metade da malha mapeada. O mesmo diagnóstico identifica milhares de localidades que ainda não possuem serviço móvel nem obrigação regulatória já definida para recebê-lo.

O país continua investindo na expansão das redes terrestres justamente porque essas lacunas não desapareceram. Em maio de 2026, o leilão da faixa de 700 MHz garantiu aproximadamente R$ 2 bilhões em investimentos para levar 4G ou tecnologia superior a 864 localidades remotas e cerca de 6,5 mil quilômetros de rodovias federais sem cobertura. Os compromissos associados ao Leilão do 5G também preveem atendimento de 2.349 trechos rodoviários, totalizando 35.784 quilômetros de rodovias federais pavimentadas, até o fim de 2029.

Esses investimentos mostram por que o avanço da comunicação por satélite não deve ser lido como uma disputa simples entre torres e órbita. As redes terrestres continuam sendo fundamentais, sobretudo onde há grande concentração de usuários e tráfego. O D2D entra em outra parte do problema: pode criar uma possibilidade de conexão quando essa infraestrutura deixa de alcançar o aparelho.

Não é a antena da Starlink encolhendo até caber no celular

A expressão “internet por satélite no celular” pode sugerir que serviços já conhecidos apenas eliminaram um equipamento intermediário. A mudança é mais específica.

Na banda larga satelital tradicional, o usuário depende de um terminal próprio, normalmente composto por antena e equipamentos destinados a receber e transmitir o sinal. No D2D, o objetivo é fazer o satélite se comunicar diretamente com o dispositivo móvel.

A Anatel já autorizou no Brasil experiências em que os aparelhos utilizados não precisavam ser modificados. Os primeiros testes autorizados, em 2024, envolveram smartphones operando em frequências já utilizadas pela telefonia móvel terrestre. Em 2025, a Agência também acompanhou em Brasília uma demonstração da Viasat com comunicação direta entre celulares e satélites.

Isso confirma que, em determinadas arquiteturas, smartphones convencionais podem participar desse tipo de rede sem carregar uma antena satelital dedicada. A qualificação é importante porque D2D não corresponde a uma única solução. Alguns sistemas utilizam frequências originalmente associadas às redes móveis terrestres e conseguem conversar com aparelhos que já suportam aquelas tecnologias. Outros operam em bandas tradicionalmente destinadas ao serviço móvel por satélite e podem depender de chipsets ou componentes específicos.

Portanto, dizer que “celulares comuns” poderão falar com satélites é verdadeiro para parte das implementações, mas não significa que qualquer aparelho atual conseguirá acessar qualquer constelação. A novidade está menos em tornar o satélite invisível e mais em aproximá-lo do ecossistema móvel a ponto de o mesmo dispositivo poder, em determinadas condições, ser atendido por infraestruturas diferentes.

Alcançar mais território não significa oferecer a mesma internet

Essa é a distinção central para compreender o que o D2D pode mudar.

Alcance responde a uma pergunta: a rede consegue chegar até aqui? Capacidade responde a outra: quantos usuários e quais serviços ela consegue sustentar neste lugar?

As redes terrestres trabalham com células relativamente pequenas. Em áreas densas, várias estações podem distribuir os usuários e reutilizar frequências em pontos distintos, permitindo concentrar grande capacidade onde existe grande demanda. Um sistema satelital opera em outra escala. Seus feixes podem cobrir extensões muito maiores, o que ajuda a alcançar regiões nas quais seria difícil reproduzir a mesma infraestrutura terrestre, mas faz com que recursos sejam compartilhados por áreas amplas.

Em relatório publicado em 2026, a GSMA descreve justamente esse contraste: a conectividade D2D pode estender serviços para além do alcance das redes terrestres e acrescentar resiliência em emergências, mas continua limitada por questões de capacidade e eficiência espectral. A entidade recomenda entendê-la como complemento, e não substituto, das redes móveis terrestres.

Isso não significa que comunicação direta com satélites esteja confinada a mensagens simples. Em janeiro de 2025, Vodafone e AST SpaceMobile realizaram, em uma área do País de Gales sem cobertura móvel convencional, uma videochamada via satélite usando um smartphone comercial comum. A demonstração é relevante porque mostra que aplicações de dados mais exigentes são tecnicamente possíveis, embora não prove que a mesma experiência possa ser distribuída simultaneamente a grandes quantidades de usuários.

Fornecedores também projetam avanços rápidos. A Starlink afirma que sua próxima geração de satélites para comunicação móvel deverá oferecer uma capacidade de transferência cerca de vinte vezes maior que a primeira geração e, na avaliação da própria empresa, poderá proporcionar em muitos ambientes uma experiência comparável à das redes 5G terrestres. Essas são projeções do fornecedor, não uma garantia independente de desempenho em escala.

A leitura mais segura está entre os dois extremos. O D2D já não pode ser reduzido a um recurso de emergência baseado apenas em texto, mas tampouco há base para tratá-lo como equivalente imediato a uma rede urbana densa. Ele amplia a geografia em que algum nível de conectividade pode existir sem tornar uniforme a capacidade disponível em cada ponto.

Entre ficar sem sinal e ter 5G existe um espaço enorme

Comparar qualquer conexão por satélite com uma rede 5G de alta capacidade pode produzir a pergunta errada.

Para quem está em uma área urbana bem atendida, a diferença de velocidade, latência e disponibilidade entre tecnologias importa muito. Para quem percorre uma estrada sem sinal ou está em uma propriedade afastada, a comparação pode ser outra: não é entre uma conexão rápida e uma conexão mais lenta, mas entre alguma capacidade de comunicação e nenhuma.

Nesse cenário, conseguir enviar uma mensagem, compartilhar localização, fazer uma chamada ou transmitir uma quantidade limitada de dados pode ter valor muito maior do que uma comparação abstrata de velocidade sugere. A mesma lógica vale para situações em que uma rede terrestre normalmente disponível deixa temporariamente de funcionar por falhas de energia, danos físicos ou desastres. A própria Anatel relaciona o D2D tanto à ampliação da cobertura em áreas remotas quanto à possibilidade de comunicação quando a infraestrutura terrestre está danificada ou indisponível.

Isso não autoriza imaginar que todos esses recursos estarão disponíveis para qualquer usuário brasileiro. A experiência dependerá de aparelhos, frequências, acordos entre operadoras, constelações, planos comerciais e regras de uso. O ponto relevante é anterior: a primeira mudança importante pode acontecer mesmo sem o satélite reproduzir integralmente aquilo que uma rede terrestre de alta capacidade já faz.

Durante muito tempo, perder o alcance das torres significou, na prática, sair da rede. O D2D começa a criar um espaço intermediário entre cobertura terrestre plena e desconexão completa.

A cobertura pode começar a funcionar em camadas

A imagem de uma disputa entre satélites e torres perde força quando se observa a função de cada infraestrutura.

Em cidades, centros empresariais e outras áreas densamente povoadas, redes terrestres conseguem distribuir capacidade por muitas células próximas e absorver grandes volumes de tráfego. Em regiões remotas, uma rede satelital pode alcançar o aparelho sem depender da existência de uma estação rádio base nas proximidades. Em situações de emergência, essa mesma camada não terrestre pode oferecer uma alternativa quando parte da infraestrutura local deixa de funcionar.

O resultado pode ser entendido como uma cobertura em camadas.

A expressão não é uma classificação técnica formal, mas ajuda a organizar o fenômeno. Uma camada pode concentrar capacidade onde há muita demanda. Outra pode ampliar alcance onde instalar ou manter infraestrutura terrestre é mais difícil. Em determinadas situações, a camada satelital também pode acrescentar resiliência.

Isso muda a experiência sem necessariamente mudar aquilo que o usuário segura nas mãos. O aparelho continua sendo o mesmo objeto cotidiano, mas a infraestrutura capaz de mantê-lo conectado se torna mais heterogênea.

Para um país com dimensões continentais, essa combinação é particularmente relevante. A tecnologia adequada para atender milhões de usuários dentro de uma região metropolitana não precisa ser a mesma que reduz interrupções de comunicação ao longo de uma rodovia ou em áreas de baixa densidade populacional. A inovação pode estar menos em encontrar uma rede capaz de fazer tudo e mais em permitir que redes diferentes cubram as limitações umas das outras.

O satélite também tem zonas de sombra

A capacidade de alcançar grandes extensões não transforma cobertura em uma propriedade universal.

Soluções D2D continuam sujeitas a condições de propagação. A Starlink, por exemplo, informa que sua comunicação direta ao celular funciona com telefones LTE existentes quando há visão do céu, enquanto análises da GSMA apontam cobertura interna e capacidade entre as limitações relevantes desses sistemas. Prédios, subsolos, obstáculos físicos e ambientes urbanos complexos podem, portanto, continuar dificultando a conexão.

A compatibilidade dos dispositivos também varia. Um sistema capaz de usar determinados smartphones convencionais não torna automaticamente compatíveis todos os aparelhos em circulação. Além disso, o desempenho depende de fatores como espectro disponível, arquitetura da constelação, número de satélites, área atendida por cada feixe e quantidade de usuários tentando acessar o serviço ao mesmo tempo.

Por isso, expressões como “sinal em qualquer lugar” devem ser tratadas com cautela. O D2D pode mudar significativamente a fronteira das redes móveis sem eliminar todas as zonas de sombra, e pode ampliar alcance sem produzir a mesma qualidade em todos os ambientes.

A rede também precisa ser construída nas regras

A integração entre satélite e celular não depende apenas de engenharia. Ela também exige que sistemas diferentes possam coexistir no espectro.

Quando um satélite transmite diretamente para smartphones usando faixas associadas ao Serviço Móvel Pessoal, ele entra em um ambiente no qual operadoras já possuem autorizações, redes terrestres já funcionam e interferências precisam ser controladas. É justamente por isso que a Anatel adotou um ambiente regulatório experimental.

Em agosto de 2026, o Ato nº 10.902 prorrogou o sandbox brasileiro de D2D até 22 de abril de 2029, ou até a entrada em vigor de regras definitivas. A atualização também passou a permitir que aplicações associadas às autorizações temporárias tenham caráter comercial dentro das condições do experimento.

Em setembro, a autorização da Telefônica Brasil, dona da Vivo, foi estendida até a mesma data para operação temporária em todo o território nacional. A possibilidade de caráter comercial não equivale, porém, a um lançamento nacional definitivo. A operação continua inserida em um ambiente experimental, submetida a condições específicas e sujeita à futura regulamentação permanente. Segundo a cobertura especializada, a Starlink foi indicada à Anatel como parceira para os testes da Vivo, mas a autorização é da Telefônica Brasil e outro operador satelital pode ser utilizado desde que a Agência seja informada.

O debate também ultrapassa as fronteiras brasileiras. A Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027 tem entre seus itens de agenda estudos sobre conexão direta entre sistemas móveis por satélite e dispositivos IMT. O Brasil já apresentou contribuições técnicas relacionadas à compatibilidade e ao compartilhamento de espectro nesse processo.

A rede híbrida, portanto, precisa ser construída em dois planos ao mesmo tempo: na capacidade física de satélites e redes terrestres se complementarem e nas regras que permitem que façam isso sem prejudicar outros serviços.

Ter sinal continua sendo apenas uma parte de estar conectado

Mesmo uma expansão relevante da cobertura geográfica não resolveria todas as dimensões da exclusão digital.

A própria Anatel passou a incorporar ao planejamento de redes a noção de conectividade universal e significativa, que vai além da existência física de sinal e considera disponibilidade e qualidade da infraestrutura, custo acessível, acesso a dispositivos, habilidades digitais e segurança. Uma região pode ser alcançada por uma rede e seus moradores continuarem sem acesso efetivo porque o serviço é caro, o aparelho não é compatível ou a capacidade disponível não responde às suas necessidades.

A GSMA faz distinção semelhante ao separar a lacuna de cobertura da lacuna de uso. Em 2026, a entidade estimava que 5% da população da América Latina e do Caribe permanecia fora da cobertura de internet móvel, enquanto 31% viviam em áreas cobertas, mas ainda não utilizavam o serviço. As barreiras associadas ao segundo grupo incluem custo de aparelhos, habilidades digitais e preocupações com segurança.

O D2D pode atacar uma parte concreta do primeiro problema ao ampliar a possibilidade de comunicação em lugares onde a rede terrestre não chega ou não está disponível naquele momento. Isso já seria uma mudança importante, sem precisar transformar a tecnologia em resposta para todo o problema da conectividade brasileira.

O que passa a significar ter cobertura

Durante décadas, perder a rede terrestre significou, na experiência cotidiana, perder a conexão móvel até que o aparelho encontrasse outra estação capaz de atendê-lo. O Direct-to-Device começa a introduzir uma possibilidade diferente: a torre pode deixar de alcançar o celular sem que isso implique necessariamente ausência completa de comunicação.

Essa mudança não cria uma rede uniforme. Uma conexão satelital pode ter capacidade menor, depender de visão do céu, funcionar apenas com determinados aparelhos, oferecer serviços específicos ou estar sujeita a condições comerciais e regulatórias diferentes das encontradas nas redes terrestres.

É justamente por isso que a ideia de cobertura se torna mais interessante. Perguntar apenas se existe sinal começa a dizer menos sobre aquilo que o usuário realmente pode fazer. A resposta passa a depender de qual infraestrutura alcança aquele ponto, que capacidade ela oferece, quais serviços consegue sustentar e em quais condições.

A conexão direta entre satélites e celulares torna mais explícita uma distinção que nem sempre aparece quando falamos em cobertura: alcance e capacidade não são a mesma coisa. Redes terrestres continuarão essenciais para concentrar tráfego e atender populações densas; redes satelitais podem acrescentar alcance e resiliência nos lugares e momentos em que essa infraestrutura termina ou falha.

Em um país de dimensões continentais, a transformação mais relevante talvez não seja oferecer exatamente a mesma internet em todos os pontos do mapa. Pode ser tornar menos comum a situação em que a distância da infraestrutura terrestre significa ausência completa de comunicação.

Bárbara Gouvêa
Bárbara Gouvêahttp://barbaragouvea.com.br
Bárbara Gouvêa é administradora formada pela UFRRJ, com trajetória profissional construída entre comunicação, marketing e gestão de projetos. Sua experiência inclui projetos envolvendo articulação de stakeholders, processos, negócios e atuação em contextos de alta complexidade.Desenvolve Narrativa de Mercado, campo de investigação dedicado a compreender como mercados constroem significados e como esses significados influenciam percepção, legitimidade, valor e escolha.

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